A Psicanálise, como campo teórico e clínico, é profundamente marcada pelo tempo em que se insere. Desde os escritos fundadores de Freud até os desdobramentos contemporâneos, a forma como entendemos o sujeito, suas estruturas clínicas e a dinâmica das relações tem sido moldada pelas transformações culturais e sociais. Nos últimos tempos, questões como o dinamismo da vida moderna, a forma de criar filhos e a relação entre pais e cuidadores têm impactado profundamente o comportamento humano e as configurações de neurose, psicose e perversão. Este texto busca explorar essas mudanças sob a ótica psicanalítica, destacando desafios e adaptações na prática clínica.
A Sociedade Contemporânea e as Relações de Cuidado

A criação de filhos é um dos primeiros contextos em que a subjetividade se constitui. Desde a introdução da Psicanálise, sabemos que a qualidade das relações primárias é fundamental para a formação do psiquismo. A modernidade trouxe mudanças drásticas nesse cenário: pais cada vez mais ausentes, terceirização do cuidado infantil e a pressão por um equilíbrio entre carreira e família alteraram a dinâmica parental.
Donald Winnicott, em sua concepção de “mãe suficientemente boa” (Winnicott, 1965), enfatizou que a responsividade materna era crucial para o desenvolvimento saudável da criança. Entretanto, na sociedade atual, essa presença tem sido fragmentada. A sobrecarga de trabalho e a constante busca por validação social no ambiente digital geram lacunas emocionais que podem ser percebidas como “faltas transferidas” no vínculo cuidador-criança.
Mudanças nas Estruturas Clínicas: Neurose, Psicose e Perversão
Freud delineou as estruturas clínicas como respostas do sujeito às demandas do desejo e às dinâmicas de castração. No entanto, é importante notar como os fenômenos contemporâneos têm ressignificado essas estruturas.
1. Neurose
A neurose, tradicionalmente associada ao conflito entre o desejo inconsciente e a repressão, permanece como a estrutura clínica mais comum na prática psicanalítica. No entanto, sua apresentação clínica mudou. Hoje, os pacientes neuróticos trazem sintomas relacionados à ansiedade generalizada, ao burnout e a uma constante sensação de inadequação. O ideal do “sujeito performático” descrito por Byung-Chul Han em A Sociedade do Cansaço (Han, 2015) reflete uma nova forma de sofrimento: a autoexploração e a pressão por ser produtivo e feliz simultaneamente.
Esse contexto reflete mudanças no Superego, que se tornou ainda mais cruel e exigente, reforçado pelas redes sociais e pelo comparativo constante com os outros. A culpa neurótica se manifesta de maneiras mais sutis, como o sentimento de não ser suficiente ou o medo de fracassar em atender às expectativas sociais.
2. Psicose
No campo da psicose, a desinstitucionalização e o maior acesso a tratamentos medicamentosos alteraram significativamente a prática clínica. Embora os quadros psicóticos clássicos ainda sejam prevalentes, observa-se um aumento de sujeitos psicóticos que, com suporte farmacológico e terapêutico, conseguem sustentar uma relação funcional com o mundo.
Além disso, a virtualização da vida trouxe novos desafios. A psicose, com sua ruptura do laço com o simbólico, encontra no espaço digital um terreno fértil para reforçar delírios e alucinações. Jacques Lacan já apontava a fragilidade do registro simbólico no psicótico, e a dificuldade em ancorar-se na realidade parece agravada pela hiperconexão e pela criação de realidades paralelas online.
3. Perversão
A perversão, enquanto estrutura que desafia a lei simbólica e tenta instaurar a própria lei, também assume novas faces. Lacan destacou que o perverso não apenas transgride, mas busca sustentar a lei ao colocá-la à prova. Na contemporaneidade, isso se traduz em comportamentos como o ciberbullying, a cultura de cancelamento e a exposição digital de intimidades.
A tecnologia ampliou o campo das práticas perversas ao criar novas possibilidades para o voyeurismo e o exibicionismo. Em muitos casos, a pulsão escópica encontra no ambiente digital uma arena infinita, onde o olhar do Outro é continuamente capturado e manipulado.
Impactos na Prática Clínica Psicanalítica
As mudanças nas configurações subjetivas exigem adaptações na prática clínica. O setting terapêutico tradicional, com sessões presenciais, passou a dividir espaço com atendimentos online, uma mudança acelerada pela pandemia de COVID-19. Embora a virtualização da clínica tenha permitido maior acesso à Psicanálise, também trouxe desafios relacionados à transferência, ao manejo do silêncio e ao enquadre.
1. Transferência e Virtualidade
O conceito de transferência, central à Psicanálise, é afetado pela tela. O analista, que outrora era um corpo presente, agora se torna uma voz ou uma imagem mediada por um dispositivo. Isso altera a qualidade do vínculo transferencial, exigindo do analista maior sensibilidade para captar nuances emocionais e resistências.
2. Novos Sintomas
Freud afirmou que os sintomas são a “linguagem do inconsciente” (Freud, 1905). Os sintomas contemporâneos, no entanto, frequentemente se manifestam em uma linguagem mais conectada à hiperatividade tecnológica. Adições comportamentais, como dependência de redes sociais, compulsão por compras online e pornografia digital, desafiam os modelos tradicionais de interpretação.
3. Repensando o Diagnóstico
O diagnóstico estrutural (neurose, psicose e perversão) permanece um pilar da clínica, mas sua aplicação prática exige flexibilidade. Muitos pacientes apresentam sintomas híbridos, que desafiam classificações rígidas. É preciso, portanto, um olhar mais dinâmico e contextualizado para compreender o sofrimento psíquico.
Panorama Teórico: Diálogos com Outras Disciplinas
A Psicanálise contemporânea também dialoga cada vez mais com outras disciplinas, como a neurociência, a sociologia e a filosofia. Essa interdisciplinaridade enriquece a compreensão do sujeito e amplia as possibilidades de intervenção.
Por exemplo, estudos sobre neuroplasticidade ajudam a esclarecer mecanismos inconscientes e a importância das primeiras relações na formação da personalidade. Da mesma forma, teorias sociais, como as de Zygmunt Bauman em Modernidade Líquida (Bauman, 2000), ajudam a compreender a fragilidade das relações humanas na contemporaneidade e seu impacto no psiquismo.
Conclusão
As mudanças sociais e culturais dos últimos tempos transformaram profundamente o comportamento humano, as personalidades e as estruturas clínicas. A Psicanálise, fiel à sua essência, continua a adaptar-se a essas transformações, sem perder de vista seu compromisso com a escuta do inconsciente e com a singularidade de cada sujeito. A Psicanálise, ao longo de sua trajetória, mostrou-se uma prática viva, capaz de dialogar com o contexto histórico e social sem abrir mão de seus fundamentos. No entanto, o desafio contemporâneo é equilibrar a preservação de sua essência teórica com a flexibilidade necessária para lidar com novos sintomas, novas formas de subjetivação e novas configurações clínicas.
A relação entre pais e filhos, moldada por dinâmicas sociais e culturais modernas, evidencia como as faltas simbólicas, essenciais para o processo de subjetivação, podem ser exacerbadas ou negadas. Isso impacta diretamente na forma como o sujeito se posiciona diante do desejo e da castração. A Psicanálise, nesse sentido, precisa continuar aprofundando-se nos efeitos dessa ausência ou excesso no laço primário, entendendo como essas experiências se refletem nas neuroses contemporâneas, nas psicoses e nas perversões.
Ademais, o avanço tecnológico traz demandas inéditas para a clínica. Não se trata apenas de compreender os novos sintomas, mas de revisar o setting e repensar como a subjetividade é atravessada pela virtualidade. A relação do sujeito com o corpo, com o Outro e com o espaço simbólico sofre profundas alterações em um mundo hiperconectado, onde a separação entre realidade e fantasia torna-se cada vez mais tênue.
Reflexões Finais
Em tempos de mudanças vertiginosas, a Psicanálise mantém-se relevante justamente por sua capacidade de oferecer um espaço único de escuta e reflexão, em contraste com a aceleração e a superficialidade da vida moderna. Mais do que nunca, é necessário reafirmar a importância do encontro analítico como um momento de pausa, de elaboração e de resgate da singularidade.
O futuro da prática psicanalítica dependerá de sua habilidade de continuar escutando o sofrimento humano em sua multiplicidade de formas, reconhecendo que cada época traz seus próprios desafios, mas também suas possibilidades de transformação. Como Freud destacou, o objetivo do trabalho analítico não é eliminar o sofrimento, mas possibilitar que o sujeito encontre novos caminhos para lidar com ele.
Assim, diante das mudanças comportamentais, sociais e culturais que nos cercam, cabe à Psicanálise não apenas adaptar-se, mas também contribuir criticamente para o entendimento das estruturas clínicas e dos modos de subjetivação da contemporaneidade, mantendo vivo o diálogo com o desejo e o inconsciente.
Bibliografia
- Bauman, Zygmunt. Modernidade Líquida. Rio de Janeiro: Zahar, 2000.
- Freud, Sigmund. Os Chistes e sua Relação com o Inconsciente. (1905).
- Han, Byung-Chul. A Sociedade do Cansaço. Petrópolis: Vozes, 2015.
- Lacan, Jacques. Os Escritos. Rio de Janeiro: Zahar, 1998.
- Winnicott, Donald. O Ambiente e os Processos de Maturação. Porto Alegre: Artmed, 1965.
Escrito por Adriana Gil
Jan 2025